De manhã saímos pra passear numa cidade quase deserta, afinal estamos nos dias finais do carnaval e as pessoas estão mais ligadas nas noites que nos dias.
Andamos por uns barirros não muito convidativos e acabamos na antiga parte colonial da cidade, o Casco Antiguo. A história da Cidade do Panamá é bem interessante: foi uma das primeiras cidades fundadas pelos espanhóis nas Américas, mas num local distinto do atual, conhecido hoje por Panamá Viejo. Em mil seiscentos e antigamente, essa cidade foi atacada, saqueada e por fim incendiada pelo pirata Sir Henry Morgan, tendo sobrado apenas algumas ruínas que ainda podem ser avistadas hoje.
A cidade então foi refundada na região que hoje é o Casco Antiguo, considerada mais fácil de ser defendida. Por fim, durante o sec XX, a classe dominante local foi paulatinamente abandonando essa área em favor de outras mais modernas, como El Cangrejo. Atualmente, está acontecendo um movimento de valorização e restauração dessa parte antiga, mas ainda é um trabalho em andamento. Pra nós, o Casco Antiguo pareceu uma versão piorada de Cartagena, valeu a visita mas está longe de ser alguma maravilha.
Na hora do almoço, decidimos nos proporcionar um luxo e comemos no Manolo Caracol, que os guias indicavam como um dos melhores, se não o melhor, restaurante da cidade. Pro almoço eles servem uma sucessão de tapas (pequenos pratos), um mais gostoso que o outro: teve creme de pupunha, vieiras ao molho creolle, camarão, cogumelos, peixe, kafta, coelho… O banquete parecia não ter fim, e tudo delicioso. A conta saiu um pouco salgada (US$60 pros dois) mas valeu a pena.
Depois, por fim, fomos fazer a inevitável visita ao Canal do Panamá. Confesso que esperava mais: a construção é impressionante, mas depois de meia hora perde a graça. Acho que nessa horas sou mais bicho do mato mesmo. Já a história do canal, essa sim, prende a atenção: durante muito tempo, se falou da hipótese de construir um canal ligando os dois oceanos, e encurtando enormemente o tempo de trânsito dos navios. Finalmente, no final do sec XIX, o governo Colombiano (o Panamá era então parte da Colômbia, remanescente da Gran Colombia bolivariana, que deu origem também ao Equador, Peru e Venezuela) deu permissão a uma companhia francesa para iniciar as obras.
Para isso contrataram o engenheiro DeLesseps, que tinha feito fama construindo o Canal de Suez no Egito. Mas acontece que uma floresta tropical é bem mais temperamental que uma região desértica, e graças a desabamentos, acidentes e, principalmente, aos mosquitos da malária e febre amarela, depois de alguns anos a companhia declarou falência, tendo escavado menos da metade do projeto.
Alguns anos depois, entram em cena os americanos que decidiram comprar a brigar e encarar a construção do canal, mas fizeram uma série de demandas que o governo colombiano não estava a fim de atender. No problem, logo em seguida um grupo “revolucionário” declarava a independência do Panamá, que foi prontamente reconhecida pelo Tio Sam. E quando a Colômbia pensou em mandar tropas pra botar a casa em ordem, deu de cara com uma esquadra americana que estava ali para garantir a independência do novo país. Sem nenhum interesse, lógico.
Assim, a república do Panamá foi criada. E logo em seguida assinavam um acordo com os hermanos americanos, cedendo tudo que os colombianos não haviam querido dar: permissão para construir e operar o canal indefinitivamente, bem como direitos soberanos sobre uma faixa de dez quilômetros de extensão a partir de cada uma das margens, e ainda o direito (pasmem!) de intervir militarmente no país quando achassem necessário. Ou seja, o Panamá deixava de ser uma parte da Colômbia para se tornar, na prática, uma colônia americana.
De qualquer maneira, após esses acontecimentos, os EUA de fato concluíram as obras do Canal, não que esse feito tenha sido indolor: mais de 22ooo pessoas deram a vida durante as obras, somando as empreitadas francesa e americana, mas como quase todos eram caribenhos e imigrantes africanos e asiáticos, quem está contando?
Alguns outros fatos sobre o canal:
- ele opera com um sistema de eclusas, 7 no total, que sobem e descem os barcos a medida que se movem do Atlântico para o Pacífico ou vice versa;
- a cada navio trafegado, 100000m3 de água doce são jogados no oceano, por isso a importância do lago de Gatun, que provê essa água;
- todo o sistema funciona a base de gravidade, não existe nenhum motor ‘puxando’ a água;
- cada barco navegado paga por peso. Assim, o menor montante pago foi US$0,36, por um americano que atravessou o Canal a nado. O maior, mais de US$300000, pagos por um cruzeiro norueguês;
- a cada ano mais de 13000 barcos cruzam o canal, sendo uma das maiores fontes de renda para a economia panamenha.
Eventualmente o descontentamento do povo com a ingerência americana aumentou, levando a protestos e enfrentamentos. O acordo sofreu então algumas reformulações, até que na década de 70 o então presidente americano Carter assinou um novo acordo prometendo ceder a autoridade do Canal ao Panamá no ano 2000. E, efetivamente, isso aconteceu, o que motivou grandes festas no Panamá na virada do século. Atualmente, está em curso um processo de ampliação do Canal, com a construção de um novo jogo de reclusas (o terceiro), que será maior que as atuais e permitirá a passagem de navio de porte ainda maior.
Após a visita ao Canal, voltamos ao hotel para um descanso, e no fim da tarde fomos visitar Amador, um conjunto de três ilhas ligadas por um sistema de pontes. Lá é o “calçadão” da Cidade do Panamá, onde as pessoas vão no fim da tarde correr, andar de patins ou simplesmente tomar um sorvete ou jantar num dos muitos restaurantes do local, o que foi exatamente o que fizemos.



